Apresentação da fronha
Distúrbio de ansiedade generalizada. Depressão major. Comorbilidade. As barbas lapónicas do lado de lá da secretária deram um nome à coisa. «Um distúrbio, um termo em inglês e uma comorbilidade de bónus», pensei, ansiosamente e deprimidamente – lá estava a comorbilidade. «Vou começar a apresentar-me assim, digo o meu nome e de seguida enuncio as maleitas mentais.» «E agora, doutor?», perguntei às barbas. «Por agora, vai fazer medicação. Depois veremos», respondeu. Vícios de linguagem: não vou tomá-la, antes fazê-la. Surgiu-me uma tirada cómica mas achei por bem manter-me circunspecto, como a circunstância impunha. Saí do consultório e fui asinha aviar a receita.
Como concluíra o ensino secundário e tinha por hábito ler e, ocasionalmente, ver televisão, o diagnóstico não foi uma novidade. «A sério, doutor? Então quer dizer que o facto de viver em permanente sobressalto e angústia, de me faltar o ar, ter ataques de pânico sempre que o telemóvel toca, de estar constantemente com medo do segundo que se segue, de as mãos me tremerem a la Parkinson e de planear meticulosamente os detalhes da minha morte, significa que tenho um distúrbio de ansiedade e depressão? Por essa não estava à espera. Talvez apendicite ou uma rotura de ligamentos.» Não, não era difícil adivinhar. Mas faltava a formalidade: um diagnóstico médico. Cumprida.
E agora, José? O José – para não se perderem no recurso estilístico, o José sou eu – passou a estar devidamente catalogado. O problema fora identificado. Um doente mental para todos os efeitos. «Sou um doente mental», disse para mim enquanto tomava o peso ao saco de medicamentos que o médico me prescrevera. Tantas vezes repetira aquela frase: «Pá, tu és um doente mental! É evidente que é fora de jogo»; ou «Eu dei pisca primeiro e o tipo roubou-me o lugar de estacionamento. Doente mental!»; e ainda, num contexto mais erudito, «Tu sabias que o Dalí enviou ao pai um saquinho com o seu próprio esperma acompanhado de um bilhete em que lhe declarava que nada mais lhe devia. O gajo era um doente mental!». O doente mental agora era eu – denotativamente.
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